domingo, 10 de junho de 2012

Estirpe Senhorial x Estirpe Gregária e a Moral Ocidental



 “[...] estabelece o conceito “bom” como essencialmente igual a “útil”, “conveniente”, de modo que nos conceitos “bom” e “ruim” a humanidade teria sumariado e sancionado justamente as experiências inesquecidas e inesquecíveis acerca do útil-conveniente e do nocivo-incoveniente. Bom é, segundo essa teoria, o que desde sempre demonstrou ser útil: assim pode requerer validade como ‘valioso no mais alto grau’, ‘valioso em si’”. (NIETZSCHE, 1999, p. 20).

Na filosofia nietzschiana, as concepções de “bom” e “ruim” nascem de um povo altivo, impávido, isto é, aqueles que Nietzsche irá nomear de povos nobres. É necessário salientar, o nobre, na ótica de Nietzsche, não está relacionado às riquezas, monopólio de algo valoroso no sentido capital. Mas a nobreza aqui referisse a algo forte, destemido, bom tecnicamente falando, isto é, não precisa de valores morais perniciosos que tutelem seu pensar e agir. Os Nobres, estes criadores de valores afirmativos, valores esplêndidos, ou seja, não gregários. Nietzsche assevera que “[...] toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma”. (NIETZSCHE, 1999, p.29).  
No vocabulário da nobreza, só existe o juízo bom x ruim, o útil x inútil, o produzível x estéril, contudo, o forte x franco, inábil. É por meio desses antagonismos, quer dizer, de uma estirpe senhorial x uma estirpe baixa, ou seja, a supremacia do mais forte e intrépido sobre o ínfimo e vil que a nobreza desponta. Nietzsche concebe isso como “pathos da distância”, isto é, aqueles cujo direito era “[...] cunhar nomes para os valores: que lhes importava a utilidade”. (NIETZSCHE, 1999, p. 19).
Não obstante, os juízos dos valores aristocráticos, valores oriundos de uma nobreza inestimável, serão agora, deturpados e cunhados como valores maléficos e pérfidos por um “tipo” de povo que Nietzsche caracteriza como decadentes por excelência. Por meio desta constatação, Nietzsche assevera que a moral de rebanho, ou seja, os valores judaico-cristãos nascem de um ressentimento, de uma revolta contra a estirpe senhorial. Segundo Nietzsche, o conceito “bom” x “ruim”, agora, são invertidos pela moral ressentida, ou melhor, na própria linguagem de Nietzsche, pelo “o instinto de rebanho”, (NIETZSCHE, 1999, p. 19). A inversão moralista será fatal, pois o conceito “ruim” torna-se o “bom”, ou seja, o misericordioso na estirpe de rebanho, sem embargo, o conceito “bom” nobremente falando transformar-se em “mau”, pérfido, malcriado, egoísta moralmente falando.
Nietzsche assegura que toda moral ocidental originou-se de uma tresvalorização de todos os valores nobres. A moral em vigor nos dias atuais é fruto de um ressentimento, de uma inveja de tudo que era sublime, altivo, impávido, temerário e esplendoroso da parte dos nobres. Os valores morais na atmosfera ocidental, na visão de Nietzsche, são valores niilistas, ou seja, negadores daquilo que tem mais significância perante tudo, isto é, a “vida”.  
Analisando a filosofia nietzschiana numa perspectiva ética, os valores ocidentais, advindos de um “caldeirão do ódio insatisfeito” (NIETZSCHE, 1999, p. 32) são pautados em valores além-mundo ou além-túmulo. Estes perpetuados por uma tradição socrático-platônico e posteriormente desdobrados na moral cristã. Essas tradições asseveram que o universo é dualista, das quais, concebem um mundo imperfeito x mundo perfeito numa ótica platônica e um mundo paradisíaco x mundo finito e destrutível num panorama cristão. Ambos para Nietzsche, niilistas, desvalorizadores das vicissitudes vitais.
Enfim, sem a preservação, a elevação, o anti-detrirmento da vida, não existe ética. Sem embargo, lançando mão numa ética nietzschiana, analisamos a moral ocidental, moral que faz da ave de rapina um animal manso e civilizado, perdendo assim, seus instintos e suas vontades naturais em prol de algo que subjulga e condena. Este é o papel da ética, isto é, diagnosticar todo tipo de massificação e domesticação proveniente de uma moral decadente, fraca e vil, ou seja, a nossa moral ocidental.
  

domingo, 11 de março de 2012

Zaratustra " O Profeta Nietzschiano"


Friedrich Nietzsche sintetiza todo seu pensamento na obra Assim falou Zaratustra (1883). Esse livro considerado o evangelho de Nietzsche anunciado por seu mais conhecido personagem: Zaratustra. Em consequencia do grande feito cometido pelo homem moderno, isto é, o grande aniquilamento da moral vigente e a destruição dos valores tradicionais vertido em sangue no punhal da modernidade. “Deus está morto” a proposição mais ouvida e deturpada da filosofia Nietzschiana nasce para caracterizar um novo tipo de homem, uma nova espécie sem a noção de transcendência.
 É neste ponto crucial de exaustão dos valores herdados da tradição que o profeta Zaratustra entra em cena.  O Zaratustra nietzschiano constata a dimensão dessa façanha e propõe um novo horizonte para o parricida moderno pensar em novos valores. Sem transcendência, o que resta ao homem? A imanência. Justamente para esse homem-imanente, esse homem-deus que o cálice de Zaratustra quer transbordar.
As palavras de Zaratustra trazem o verdadeiro ar das alturas; o ápice do conhecimento afirmativo. A busca pela vida não mais no supra-sensível, no extraterrestre, mas o seu sentido encontra-se nesta vida mesmo. Sendo assim, o homem-imanente precisa ser um eterno criador, ele precisa despertar sua vontade de potência adormecida pelo ópio “padronizativo” e inventar novas tábuas. O homem-deus deverá ter probidade consigo mesmo porque toda aquisição do conhecimento provém da vontade, da afirmação de si.
Enfim, Zaratustra desce da montanha com suas tábuas para recompor a ideia de Deus que exprimia a vontade de nada, a depreciação da vida segundo Gilles Deleuze. O personagem Nietzschiano surge para colocar o centro de gravidade da vida na vida. É essa afirmação dionisíaca perante o mundo, o amor fati que proporcionará o novo homem-deus viver a cada instante. Eis, o sentido da imanência.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Marxismo na Literatura

“Eu, Etiqueta”
Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou cartório,
Um nome...estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nesta vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
Que nunca experimentei (...)
(...) meu isso, meu aquilo,
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidência,
Costume, hábitos, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim um homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
Seja negar a minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos de mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim-mesmo.
Ser pensante, sentinte e solidário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio (...)
(...) Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscina,
E bem à vista exibo esta etiqueta (...)
(...) Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher? (...)
Hoje sou costurado, sou tecido,
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante, mas objeto
Que se oferece como signo de outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu novo nome é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente. 
                                                                                                                                                                          (ANDRADE, Carlos Drummond. Corpo. 10. Ed. Rio de Janeiro: Record, 1987.)


O nosso grande mestre da literatura Carlos Drummond Andrade traz implicitamente no texto acima “Eu, Etiqueta” as ideias do pai do comunismo Karl Marx (1818-1895). Eis, que Karl Marx foi um grande revolucionário e suas ideias são refletidas e debatidas nos dias atuais em varias áreas do conhecimento, tais como Filosofia, História, Sociologia, Ciência Política, Antropologia, Psicologia, Economia, Geografia e outros.
 Marx foi o primeiro a conscientizar a classe proletária de sua situação e mostrar suas condições de emancipação. Segundo Karl Marx, a historia da humanidade poderia ser considerada como a história da alienação humana. A concepção de alienação em Marx é categórica, porém trataremos aqui da alienação que cristaliza-se tanto na parte produtiva por meio da qual o homem é submetido a trabalhar horas por dia e quanto na exploração que é exercida encima desse. Dessa maneira faremos uma ponte com o pensamento de Carlos Drummond Andrade com as ideias Marxistas em relação à produção em massa, a alienação que acontece no meio de produção e a perda da identidade do indivíduo.  
O nascimento desta neurose se deu com o surgimento da Revolução Industrial, sendo assim, o capitalismo se alastrou como uma epidemia incurável dando margem a uma distinção de opressores e oprimidos, mestres e aprendizes, capitalistas e proletariados. Marx classificou isso como A luta de classes em seu livro (Manifesto do Partido Comunista 1848). “Nas palavras de Carlos Drummond o “eu, etiqueta”, o “homem anúncio” demonstra perfeitamente o que Marx diz a respeito da falta de autenticidade perante a matéria produzida pelo proletário. Na visão de Marx, nas cadeias produtivas ocorre uma troca de papeis, ou seja, a mercadoria produzida se torna sujeito e o sujeito se torna mercadoria, se torna um objeto. É dessa forma que o sujeito torna-se alheio, ou melhor, aliena-se e perde o que tem de mais valioso: sua identidade.
Essa é a grande critica que ambos os autores observaram no Capitalismo, no qual, o sujeito perde sua autonomia. Citando uma das frases de Drummond para que possamos sintetizar o nosso objetivo: (...) Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher? (...) nesta frase percebemos a grande alfinetada em nosso senso critico adormecido pela sedução da publicidade e das propagandas que a mídia nos oferece como um ópio do qual resulta um sono profundo de alienação.  Enfim, segundo Marx, a abolição da propriedade privada, a extinção do capitalismo seria a emancipação do homem alienado. Sabemos que essas ideias são muitas vezes consideras utópicas, mas sabemos também que elas estão em vigor e que muitas delas são consideradas como manuais de espíritos livres que almejam uma felicidade universal e desacreditam que o homem é apenas uma peça substituível.

    

“Proletariados uni-vos”
Karl Marx




sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Ideia na Modernidade

           Na filosofia moderna encontramos diversos usos da palavra “ideia”, porém predominou aparentemente o sentido de ideia como representação (mental) de uma coisa. Os significados teológico, metafísico, lógico de ideia um pouco esquecido nesta época, fez muitos autores a conceber as ideias como resultados da atividade de sujeito cognoscente. 

           Mediante essas ideias que a cognição do sujeito possui, é possível conceber-se racionalmente o que as coisas são de verdade tanto no aspecto metafísico quanto no ontológico. A epistemologia foi comum tanto nas tendências racionalistas quanto empiristas, embora rapidamente as primeiras tenham desembocado rapidamente no objeto conhecido, ao passo que as segundas se detiveram no sujeito cognoscente. 

Ideia na visão Racionalista

Os racionalistas tenderam a considerar que as ideias verdadeiras e adequadas têm duas faces: uma serem “conceitos do espírito, que este forma por ser uma coisa pensante”, como dizia Spinoza; a outra, a serem as “próprias coisas enquanto vistas” como afirmava Descartes.

Portanto, Spinoza e Descartes consideraram que as origens das ideias estavam num Deus absoluto ou num ponto de vista absoluto. Em conseqüência disso, os racionalistas inclinaram-se para o inatismo. 

Na visão Empirista 

Já os empiristas usaram com abundância o termo “ideia” em muitos casos, além de terem elaborado suas teorias do conhecimento como uma espécie de “doutrina das ideias”. O empirista John Locke afirma que a palavra "ideia"  indica ser a melhor forma palavra para designar a função de representar qualquer coisa que seja objeto do entendimento quando um homem pensa. A ideia para o filósofo equivale à fantasia, noção, espécie; em conclusão para Locke as ideias provêm das sensações. E o conhecimento consiste unicamente na “percepção da conexão e da concordância, ou da discordância e repulsa por qualquer das nossas ideias.”

Outro empirista indispensável é George Berkeley. Esse filósofo usa o termo ‘ideia’ e não o termo ‘coisa’ por duas razões: porque se supõe que o termo ‘coisa’, ao contrário de ideia, denota algo que existe fora do espírito. Espírito em Berkeley significa “razão” ou “alma”, isto é, a nossa consciência. Segundo o filósofo, os objetos dos sentidos existem no espírito e a esses objetos ele denomina ideia. Contudo, na ótica de Berkeley existir é ser percebido, porém a percepção resulta dos espíritos que percebem e ideias que são “coisas” enquanto percebidas.

David Hume, também foi um grande filósofo empirista que distingue entre “impressões” e “ideias”, e chama ideias as “imagens fracas das impressões ao pensar e ao raciocinar.” As ideias para Hume podem ser simples ou complexas. As ideias simples são as que não admitem distinção nem separação. Já as complexas, são aquelas nas quais podem distinguir-se em partes. 





Um grande expoente na modernidade também foi Immanuel Kant, esse filósofo é considerado como um divisor de águas. Pois afirma que tanto os racionalistas quanto os empiristas utilizaram abusivamente o termo ideia. Kant afirma que a razão e a experiência são fundamentais para o surgimento do conhecimento. Enfatiza que as duas fontes eram imprescindíveis. A concepção de “ideia” para Kant nasce das noções e da transcendência da experiência, sendo assim, temos uma ideia ou conceito da razão.




 

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Intelecto de Deus






São Tomás de Aquino  nasceu próximo a Roccasecca, na Itália, mais precisamente perto de Aquino (comuna italiana da região do Lácio), e ficou conhecido como um dos mais importantes pensadores cristãos e cultos existentes até os dias atuais. Algumas de suas obras foram: Exposição sobre o Credo; O Ente e a Essência (1248-1252); Compêndio de Teologia (1258-1259); Suma Contra os Gentios; Comentário às Sentenças; Suma Teológica; etc.

Tomás de Aquino concebe a existência do mundo não com mero acaso cego, nem a um ato natural ou necessário, mas a um ato livre de Deus. E as ideias que temos das coisas são arquétipos ou princípios de conhecimento. Segundo Tomás, essas ideias se originam no intelecto de Deus. Na obra História da Filosofia Cristã afirma: “[...] há em Deus um intelecto, e neste, uma forma, a cujo modelo Deus criou o mundo: é a esta forma original no intelecto divino que damos o nome de ideia” (AQUINO apud BOEHNER; GILSON, 2009, p.460).
Segundo o filósofo, o modo que as ideias surgem no intelecto do homem é totalmente inverso a Deus, pois para o homem chegar a uma ideia de um objeto deverá passar um processo de adaptação dos objetos exteriores (realidade) com o nosso entendimento (intelecto). Também afirma que o intelecto é uma tábua rasa, isto é, todo o processo cognitivo acontece na realidade. 
Para Tomás de Aquino, as realidades sensitivas e intelectivas são indispensáveis, pois enfatiza que uma depende da outra para existir, ou melhor, sem uma das realidades a outra não existiria. E através dessa relação da razão e experiência que o homem conhece as coisas criadas e sua causa primeira (Deus).

O problema da verdade

O filósofo Tomás de Aquino considera o homem passivo em seu conhecer, e nessa passividade ele tem a total confiança no intelecto.  Pois, a finalidade é chegar às essências das coisas. Portanto, as essências aparecem quando o intelecto abstrai o objeto, ou seja, o intelecto recebe do objeto sua essência. Não há sombra de dúvida que a essência no intelecto seja verdadeira, pois o processo é natural. Como afirma no livro: “Em tal processo não há engano possível, tampouco como a vista não pode errar na percepção da cor, ou o ouvido na do som” (AQUINO apud BOEHNER; GILSON, 2009, p.475).
Tomás de Aquino atesta que a verdade só aparece no juízo, por exemplo: Isto é um homem; Isto é uma árvore; sendo assim, não pode haver questões de verdade quando há concordância com o intelecto. Ao contrário, o juízo vai ser falso quando eu separo, por exemplo: falar que o homem é uma árvore. Enfim, a verdade é adequação “ adaequatio rei et intellectus.” 



sábado, 5 de novembro de 2011

Concepção de Deus em Jonh Loke

  

          John Locke era um filósofo empirista que viveu entre 1632 e 1704. Seu livro mais famoso chama-se Um ensaio sobre o entendimento humano, de 1690. Locke quebra os paradigmas da tradição metafísica e também se opõe ao racionalismo. Pois contradiz os racionalistas de que as ideias são inatas.
       Na concepção de Locke a “mente” humana é uma tábua rasa, uma lousa em branco. Dessa forma ela seria preenchida pela experiência, pelo contato com as coisas exteriores. Portanto, para Locke o conhecimento que temos são resultados das sensações.
     O filósofo deixa claro que nossa mente ou consciência não é mera receptora desses conteúdos extraídos dos sentidos. Para explicar esse processo Locke faz distinção entre sensação e reflexão. As sensações para o filósofo vêm da experiência externa e a reflexão da experiência interna.
      Para experiência externa o filósofo denominou as “ideias simples;” esta ideias são todas as coisas que nossos sentidos podem captar. Já a interna Locke caracteriza de “ideias da reflexão;”, pois são as operações realizadas pela mente, num sentido geral, é o processo de acomodação das ideias na mente do individuo.
      A razão também tem um papel fundamental no processo cognitivo do sujeito, Locke atesta que a razão proporciona uma classificação das qualidades primárias e secundárias. Por qualidades primárias entende-se a extensão, peso, forma, movimento e número de coisas. Já as qualidades secundárias são as cores, o cheiro, o gosto, o som, porém essas qualidades não reproduzem as características verdadeiras, e sim, uma espécie de subjetividade.
     John Locke da ênfase que só existirá conhecimento por meio da discordância e concordância entre as ideias. Nesse conflito de ideias pode ser percebido por dois modos diferentes: por intuição e por demonstração. A intuição é o acordo imediato entre as ideias, ou seja, uma evidência imediata. Mas, é através da demonstração que vamos descodificar as mesmas, isto é, dar uma identificação de cada uma.
Graças às associações das intuições Locke descobre que a existência de Deus pode ser demonstrada racionalmente. O método escolhido pelo filósofo foi utilizar a prova cosmológica, a prova da causalidade do universo. Seu primeiro passo foi dizer que sabemos de forma intuitiva, que algo existe desde a eternidade, pois se não existisse, o inicio teria de vir de alguma outra coisa. “[...] por certeza intuitiva, o homem sabe que o puro nada não produz um ser real mais do que não posso ser igual a dois ângulos retos. [...] nós sabemos que há algum ser real e que o não-ente não pode produzir um ser real, essa é a demonstração evidente de que algo existe desde a eternidade” (REALE; ANTISERI, 2005, p.93).
     Locke afirma que essa coisa existente desde a eternidade, é onipotente, onisciente e eterna. Sendo assim, está é a prova da existência de Deus. Para concluir, John Locke diz que a existência de Deus é mais certa do que aquilo que os sentidos nos manifestam. Neste caso Locke tem um ponto em comum com os racionalistas.
“[...] conhecemos que há um Deus com mais certeza do que existe qualquer outra coisa fora de nós” (LOCKE apud REALE; ANTISERI, 2005, p.103). 

Imperativo Categórico




Após a “Revolução Copernicana” elaborada por Kant em sua obra “Crítica da Razão Pura” e por meio da qual, aborda que tanto os racionalistas quanto os empiristas buscavam um centro que não era verdadeiro. No final desta pesquisa o filósofo compreendeu que o nosso conhecimento nos é dado através dos sentidos, mas este material se adapta através das formas de nossa razão. Sendo assim, precisamos das duas fontes para chegar ao conhecimento.
 Longe desses conceitos, vamos tratar aqui o pensamento moral Kantiano.  A moral Kantiana está contida nas suas principais obras: Fundamentos da Metafísica dos Costumes (1785) e na Crítica da Razão Prática (1788). Nestas obras Kant, se preocupa em responder aos interrogativos morais. 
          Immanuel Kant observa que o mais valioso interesse do homem é a liberdade; e o pensamento moral Kantiano nos propõe que as leis morais são necessárias e universais, mas sabemos que tais leis são criadas pelos próprios homens. Segundo Kant, o homem está submetido a agir por dever e liberdade, pois deve seguir a lei que ele próprio criou. Nos Fundamentos da Metafísica dos Costumes Kant diz:

Se lançarmos um olhar para trás sobre todos os esforços até agora empreendidos para descobrir o princípio da moralidade [...] via-se o homem ligado a leis pelo seu dever, mas não vinha à ideia de ninguém que ele estava sujeito só à sua própria legislação, embora que essa legislação seja universal, e que ele estava somente obrigado a agir conforme a sua própria vontade (KANT apud GALEFFI, 1986, p. 144).

             O filósofo também afirma que conceitos religiosos como: Deus, imortalidade da alma, livre-arbítrio eram indispensável para moral do homem. Kant enfatiza que a razão era incapaz de prová-los, pois tanto pela razão quanto por meio da experiência não tinham fundamentos suficientes para isso. Kant acredita que o homem possui uma razão prática. E é nesse campo prático que esses conceitos de Deus, imortalidade da alma devem ser postulados, ou seja, afirmados para prática do homem, para o seu agir e, portanto para sua moral.
        Kant também formulou que as concepções de “certo” e “errado” eram inerente a razão prática do homem, sendo assim, nos dizendo o que é certo e errado no campo da moral. Portanto, nascemos com capacidade de distinguir o certo e errado. É nesse ponto que Kant edifica uma lei moral universal e que essa lei tem a mesma validade que as leis do mundo físico.
            Essa lei moral é a priori, pois é anterior a qualquer experiência e também “formal” que não é particular ou específica a um grupo, mas sim, geral. Desse modo, valendo em todas as situações. É então que Kant formula o seu Imperativo categórico: “Age apenas segundo aquelas máximas através das quais possas, ao mesmo tempo, querer que elas se transformem em uma lei geral” (KANT apud GALEFFI, 1986, p144). Isso quer dizer que, quando fazemos algo, devemos desejar que todos os outros façam a mesma coisa na mesma situação e agindo como nós.
         Segundo o filósofo, é por meio dessa maneira que iremos agir em consonância com a lei moral. Kant também propõe através do imperativo categórico que nós tratemos as outras pessoas com um fim em si mesmo, e não como simples meio para se chegar a outra coisa.  Conforme está escrito na obra “A filosofia de Immanuel Kant”:

“[...] uma vez admitido o imperativo capaz de dirigir uma vontade que se realiza por dever, aquele imperativo deve conter por si mesmo, como demonstração indispensável da sua própria categoricidade, ‘a renuncia a todo e qualquer interesse’ que não se identifique com a própria boa vontade” (KANT apud GALEFFI, 1986, p 158).

          No entanto, o homem para Kant deve sempre conceber os demais sempre como um fim e nunca como um meio. O filósofo nos diz que desejos e interesses individuas só afastam o homem da lei moral, portanto, desvalorizando um contato harmônico com o outro. Romano Galeffi deixa claro em sua obra:
“O homem para Kant é um universal legislador; pois é justamente esta capacidade de sua máxima se tornar uma legislação universal que o distingue como fim em si mesmo; portanto, o homem para Kant deve abordar essa máxima sempre do seu ponto de vista e ao mesmo tempo do ponto de vista de todos os outros seres racionais como legislador” (GALEFFI, 1986, p 161).

         Contudo, Kant chega ás três formulações do imperativo categórico que nenhum caso pode ser hipotético.  As formulações são:
1º- Age somente como se a máxima da tua ação tivesse que se tornar mediante o teu querer uma lei universal;
2º- Age de maneira a tratar a humanidade tanto na tua pessoa, como na pessoa do teu semelhante sempre, ao mesmo tempo, como fim, nunca como um simples meio;
3º- Age de maneira que tu possas como ser racional considerar a ti mesmo em relação a todas as leis às quais tu devas estar por acaso sujeito ao mesmo tempo como universalmente legislador. Em outras palavras: Sê autônomo!
        Enfim, o imperativo categórico nada mais nada menos Kant está descrevendo a consciência do homem, consciência de sempre agir de acordo com o seu dever e não seguindo seus próprios prazeres e vícios, pois ir além do individualismo requer liberdade, sendo assim, distinguimos dos animais. Para finalizar usaremos as palavras de Kant (1781). Em sua obra Crítica da razão pura, ele afirma:
"Duas coisas enchem o ânimo de admiração e respeito, sempre novos e crescentes, quanto mais reiterada e persistentemente se ocupa delas a reflexão: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim. Ambas são coisas que não devo buscar fora de meu círculo visual [...]; vejo-as diante de mim e enlaço-as diretamente com a consciência de minha existência. A primeira provém do lugar que eu ocupo no mundo sensível externo e estende para o imensamente grande o enlace em que estou com mundos e mais mundos e sistemas de sistemas [...]. A segunda provém do meu invisível, de minha personalidade [...] A primeira visão de uma inumerável multidão de mundos aniquila, por assim dizer, a minha importância como criatura [...]. A segunda, ao contrário, em virtude da minha personalidade eleva infinitamente o meu valor como inteligência, na qual a lei moral me revela uma vida independente da animalidade e também de todo o mundo sensível".