sexta-feira, 22 de junho de 2012

A fome na Ucrânia - um dos maiores crimes do estado foi esquecido


Como ocorre em todos os regimes totalitários, a Rússia bolchevista temia toda e qualquer manifestação de sentimento nacionalista entre aqueles povos que eram reféns do regime.  A propaganda bolchevique relativa aos direitos das várias nacionalidades dentro da esfera de influência da Rússia mascarava o temor do regime em relação ao poder do nacionalismo.
No início de 1918, o líder russo Vladimir Ilitch Lênin tentou impor um governo soviético sobre o povo da Ucrânia, o qual, apenas um mês antes, em janeiro, havia declarado sua independência.  De início, o objetivo de Lênin havia sido aparentemente alcançado.  Esse governo soviético imposto à Ucrânia tentou de imediato suprimir as instituições educacionais e sociais ucranianas; há até relatos sobre a Cheka, uma precursora da KGB, matando pessoas pelo crime de falar ucraniano nas ruas.
Embora o povo ucraniano tenha, ao final de 1918, conseguido restabelecer sua república, essa vitória foi efêmera.  Lênin, sem dúvida, iria querer incorporar a Ucrânia ao sistema soviético de qualquer jeito, porém seu real desejo de assegurar o controle da Ucrânia era por causa de seus grandes recursos naturais.  Em particular, a Ucrânia ostentava o solo mais fértil da Europa — daí o seu apelido de "o manancial da Europa".
Já no início de 1919, um governo soviético havia novamente sido estabelecido na Ucrânia.  Porém, esse novo governo soviético acabou se tornando mais um fracasso.  Todos esses eventos estavam ocorrendo durante a Guerra Civil Russa, e a ajuda de facções rivais contribui para um segundo triunfo da independência ucraniana.
Com esses dois fracassos, o regime de Lênin aprendeu uma valiosa lição.  De acordo com Robert Conquest, autor do livro The Harvest of Sorrow (A colheita do sofrimento), "Concluiu-se que a nacionalidade e a língua ucraniana eram de fato um elemento de grande peso, e que o regime que ignorasse isso de maneira ostentosa estaria fadado a ser considerado pela população como uma mera imposição usurpadora." 
Quando os soviéticos adquiriram o controle da Ucrânia pela terceira e última vez em 1920, eles constataram que iriam enfrentar uma contínua resistência e incessantes insurreições a menos que fizessem grandes concessões à autonomia cultural ucraniana.  E assim, pela década seguinte, os ucranianos basicamente não foram incomodados em seu idioma e em sua cultura. 
Porém, uma facção dos comunistas russos se mostrou incomodada com isso, e seguidamente alertava que o nacionalismo ucraniano era uma fonte de intolerável divisão dentro do quadro militar soviético, e que, mais cedo ou mais tarde, a situação teria de ser confrontada de alguma maneira.
Avancemos agora oito anos no tempo.  Em 1928, com Josef Stalin firmemente no poder, a União Soviética decidiu implantar uma política de requisição compulsória de cereais — uma maneira polida de dizer que o governo iria tomar à força todo o cereal cultivado pelos camponeses, pagando em troca um preço fixado arbitrariamente pelo governo, muito abaixo dos custos de produção.  A liderança soviética, em decorrência tanto de informações equivocadas quanto de sua típica ignorância dos princípios de mercado, havia se convencido de que o país estava no limiar de uma crise de escassez de cereais.  A requisição compulsória funcionou, mas apenas no limitado sentido de que forneceu ao regime todo o volume de cereais que ele julgava ser necessário.  Porém, tal política solapou fatalmente a confiança futura dos camponeses no sistema.  Durante a Guerra Civil Russa, em 1919, para tentar combater a fome da população urbana, Lênin havia confiscado em escala maciça os cereais de vários camponeses, que foram chamados de especuladores e sabotadores.  Agora em 1928, a possibilidade de novos confiscos, algo que os camponeses imaginavam ser apenas uma aberração bárbara da época da Guerra Civil, passaria a ser uma constante ameaça no horizonte.
Os camponeses, naturalmente, passaram a ter menos incentivos para produzir, pois sabiam perfeitamente bem que, dali em diante, os frutos de seu trabalho árduo poderiam ser facilmente confiscados por um regime sem lei — o mesmo regime que havia prometido aos camponeses, quando da promulgação da NEP em 1921, que eles poderiam produzir e vender livremente.
Foi apenas uma questão de tempo para que o regime decidisse embarcar em um amplo programa de coletivização forçada das propriedades agrícolas, uma vez que a abolição da propriedade privada da terra era um importante aspecto do programa marxista.  Os camponeses despejados foram enviados bovinamente para enormes fazendas estatais.  Essas fazendas iriam não apenas satisfazer as demandas da ideologia marxista, como também iriam resolver o grande problema prático do regime: garantir que uma quantidade adequada de cereais fosse ofertada às cidades, onde o proletariado soviético trabalhava duramente para expandir a indústria pesada.  Fazendas coletivas estatais significavam cereais estatizados.
Alguns especialistas tentaram alertar Stalin de que seus objetivos, tanto industriais quanto agrícolas, eram excessivamente ambiciosos e estavam em total desacordo com a realidade.  Mas Stalin nem queria ouvir.  Um de seus economistas, diga-se de passagem, chegou a afirmar que "Nossa tarefa não é estudar a ciência econômica, mas sim mudá-la.  Não estamos restringidos por nenhuma lei.  Não reconhecemos leis.  Não há uma só fortaleza que os bolcheviques não possam atacar e destruir."
Paralelamente à política de coletivização forçada implantada por Stalin, ocorreu também uma brutal campanha contra os grandes proprietários de terras, fazendeiros ricos conhecidos como "kulaks", os quais o governo temia liderarem movimentos de resistência contra a coletivização.  Mas era uma fantasia de Stalin imaginar que apenas os kulaks se opunham à coletivização; toda a zona rural estava unida contra o governo.  (Até mesmo o Pravdanoticiou um incidente no qual uma mulher ucraniana tentou bloquear a passagem de tratores que estavam chegando para começar a trabalhar nas fazendas coletivizadas; a mulher gritara "O governo soviético está recriando a escravidão!").
Stalin falava abertamente de sua política de "liquidar toda a classe dos kulaks"; eles eram a classe inimiga da zona rural.  Com o passar do tempo, como era de se esperar, a definição padrão de o que constituía um kulak foi se tornando bastante ampla, até finalmente chegar ao ponto em que o termo — e as terríveis penalidades que eram aplicadas a todos aqueles infelizes a quem o termo era aplicado — podia ser aplicado a praticamente qualquer camponês.
Uma historiografia sobre o Partido Comunista, autorizada pelo próprio, relatou que "os camponeses caçaram impiedosamente os kulaks por toda a terra, tomaram todos os seus animais e todo o seu maquinário, e então pediram ao regime soviético para aprisionar e deportar os kulaks."  Como descrição do reino de terror imposto aos kulaks, esse relato não pode nem sequer ser classificado como uma piada sem graça.  O regime, e não os camponeses é quem perseguiu os kulaks.  No final, de acordo com uma testemunha ocular, para que um homem fosse condenado a um destino cruel, bastava que "ele tivesse pagado algumas pessoas para trabalhar para ele como empregados, ou que ele tivesse sido o proprietário de três vacas.”.
As quase 20 milhões de propriedades agrícolas familiares que existiam na Rússia em 1929 estariam, cinco anos depois, concentradas em apenas 240.000 fazendas coletivas.  Ao longo de grande parte de toda a história soviética, não era incomum algumas pessoas obterem a permissão para ser donas, em locais distintos, de alguns poucos acres de terra para uso privado.  Quando Mikhail Gorbachev assumiu o poder em 1985, os 2% de terra agrícola que eram propriedade privada produziam nada menos que 30% de todos os cereais do país — uma resposta humilhante para todos aqueles que ignorantemente afirmavam que a agricultura socializada seria mais eficiente que a agricultura capitalista, ou que eles poderiam alterar a natureza humana ou reescrever as leis da economia.
Na mesma época em que Stalin começou a coletivização forçada, em 1929, ele também recriou a campanha contra a cultura nacional ucraniana, campanha essa que estava dormente desde o início da década de 1920.  Foi na Ucrânia que a política de coletivização stalinista deparou-se com a mais ardorosa e violenta resistência — o que não impediu, entretanto, que o processo já estivesse praticamente completo por volta de 1932.  Stalin ainda considerava a contínua e inabalável presença do sentimento nacionalista ucraniano uma permanente ameaça ao regime, e decidiu lidar de uma vez por todas com aquilo que ele via como o problema da 'lealdade dividida' na Ucrânia.
A primeira etapa de sua política foi direcionada aos intelectuais e personalidades culturais da Ucrânia, milhares dos quais foram presos e submetidos a julgamentos ridículos e escarnecedores.  Após isso, tendo retirado de circulação aquelas pessoas que poderiam se transformar em líderes naturais de qualquer movimento de resistência, Stalin passou então a atacar o próprio campesinato, que era onde estava o real núcleo das tradições ucranianas.
Mesmo com o processo de coletivização já praticamente completo na Ucrânia, Stalin anunciou que a batalha contra os perversos kulaks ainda não estava ganha — os kulaks haviam sido "derrotados, mas ainda não exterminados."  Stalin começaria agora uma guerra — supostamente contra os kulaks — direcionada aos poucos fazenderios que ainda restavam e dentro das próprias fazendas coletivas.  Dado que, a essa altura, qualquer pessoa que por qualquer definição cabível pudesse ser classificada como um kulak já havia sido expulsa, morta ou enviada para campos de trabalho forçado, essa nova etapa da campanha soviética na Ucrânia teria o objetivo de aterrorizar os camponeses comuns.  Estes deveriam ser física e espiritualmente quebrados, e sua identidade de seres humanos seria drenada deles à força.
Stalin começou estipulando metas de produção e entrega de cereais, as quais os ucranianos só conseguiriam cumprir caso parassem de se alimentar, o que os faria morrer de fome.  O não cumprimento das exigências era considerado um ato de deliberada sabotagem.  Após algum tempo, e com a produção e entrega inevitavelmente abaixo da meta, Stalin determinou que seus ativistas confiscassem dos camponeses todo o volume de cereais necessário para o governo ficar dentro da meta estipulada.  Como a produção era baixa, os camponeses frequentemente ficavam sem nada.  O desespero se instalou.  Um historiador conta que uma mulher, por simplesmente ter tentado cortar para si um pouco do seu próprio centeio, foi levada presa junto a um de seus filhos.  Após conseguir fugir da prisão, ela coletou, com a ajuda do seu filho, alguns poucos itens comestíveis e foram viver na floresta.  Morreram após um mês e meio.  As pessoas eram sentenciadas a dez anos de prisão e a trabalhos forçados pelo simples fato de colherem batatas, ou até mesmo por colher espigas de milho nos pedaços de terra privada que elas podiam gerir.  Tudo tinha de ser do governo.
Os ativistas comunistas afirmavam que os sabotadores estavam por todos os lados, sistematicamente retendo e escondendo comida, impedindo o abastecimento das cidades, e desafiando as ordens de Stalin.  Esses ativistas invadiam de surpresa as casas dos camponeses e faziam uma varredura no local em busca de alguma comida escondida.  Aqueles ativistas mais bondosos ainda deixavam algum resquício de comida para as famílias, porém os mais cruéis saíam levando absolutamente tudo o que encontravam.
O resultado foi totalmente previsível: as pessoas começaram a passar fome, em números cada vez maiores.  Um camponês que não tivesse a aparência de alguém que esteja esfomeado era imediatamente considerado suspeito pelas autoridades soviéticas de estar estocando comida.  Como relata um historiador, "Um ativista comunista, após fazer uma busca minuciosa pela casa de um camponês que não aparentava a mesma fome dos demais, finalmente encontrou um pequeno saco de farinha misturada com casca de árvore e folhas.  O material foi confiscado e despejado em um lago do vilarejo."
Robert Conquest cita o testemunho de outro ativista:
Eu ouvi as crianças... engasgando sufocadas, tossindo e gritando de dor e de fome.  Era doloroso ver e ouvir tudo aquilo.  E ainda pior era participar de tudo aquilo.... Mas eu consegui me persuadir, me convencer e explicar a mim mesmo que aquilo era necessário.  Eu não poderia ceder; não poderia me entregar a uma compaixão debilitante .... Estávamos efetuando nosso dever revolucionário.  Estávamos obtendo cereais para a nossa pátria socialista....
Nosso objetivo maior era o triunfo universal do comunismo, e, em prol desse objetivo, tudo era permissível — mentir, enganar, roubar, destruir centenas de milhares e até mesmo milhões de pessoas...
Era assim que eu e meus companheiros raciocinávamos, mesmo quando... eu vi o real significado da "coletivização total" — como eles aniquilaram os kulaks, como eles impiedosamente arrancaram as roupas dos camponeses no inverno de 1932-33.  Eu mesmo participei disso, percorrendo a zona rural, procurando por cereais escondidos.... Junto com meus companheiros, esvaziei as caixas e os baús onde as pessoas guardavam seus alimentos, tampando meus ouvidos para não ouvir o choro das crianças e a lamúria suplicante das mulheres.  Eu estava convencido de que estava realizando a grande e necessária transformação da zona rural; e que nos dias vindouros as pessoas que viveriam ali estariam em melhor situação por minha causa.
Na terrível primavera de 1933, vi pessoas literalmente morrendo de fome.  Vi mulheres e crianças com barrigas inchadas, ficando azuis, ainda respirando mas com um olhar vago e sem vida.... Eu não perdi a minha fé.  Assim como antes, eu acreditava porque eu queria acreditar.
Em 1933, Stalin estipulou uma nova meta de produção e coleta, a qual deveria ser executada por uma Ucrânia que estava agora à beira da mortandade em massa por causa da fome, que havia começado em março daquele ano.  Vou poupar o leitor das descrições mais gráficas do que aconteceu a partir daqui.  Mas os cadáveres estavam por todos os lados, e o forte odor da morte pairava pesadamente sobre o ar.  Casos de insanidade, e até mesmo de canibalismo, estão bem documentados.  As diferentes famílias camponesas reagiam de maneiras distintas à medida que lentamente iam morrendo de fome:
Em uma choupana, era comum haver algum tipo de guerra entre a família.  Todos vigiavam estritamente todos os outros.  As pessoas brigavam por migalhas, tomando restos de comida umas das outras.  A esposa se voltava contra o marido e o marido, contra ela.  A mãe odiava os filhos.  Já em outra choupana, o amor permaneceria inviolável até o último suspiro da família.  Eu conheci uma mulher que tinha quatro filhos.  Ela costumava lhes contar lendas e contos de fadas com a intenção de fazê-los esquecer da fome.  Sua própria língua mal podia se mover, mas mesmo assim ela se esforçava para colocá-los em seus braços, ainda que ela mal tivesse forças para levantar seus braços quando eles estavam vazios.  O amor vivia dentro dela.  E as pessoas notaram que, onde havia ódio, as pessoas morriam mais rapidamente.  Entretanto, o amor não salvou ninguém.  Todo o vilarejo sucumbiu; todos juntos, sem exceção.  Não restou uma só vida.
Normalmente é dito que o número de ucranianos mortos na fome de 1932-33 foi de cinco milhões.  De acordo com Robert Conquest, se acrescentarmos outras catástrofes ocorridas com camponeses entre 1930 e 1937, incluindo-se aí um enorme número de deportações de supostos "kulaks", o grande total é elevado para entorpecentes 14,5 milhões de mortes.  E, mesmo assim, se apenas 1% dos alunos do ensino médio já tiver ouvido falar sobre esses eventos, isso já seria um pequeno milagre.
Durante o artigo, referi-me várias vezes a Robert Conquest, um excelente historiador da União Soviética.  Conclamo, insisto e exorto qualquer pessoa com interesse nesses eventos a ler seu extraordinário livro The Harvest of Sorrow.  A leitura flui como se fosse um romance — mas a história relatada é excessivamente real.

Esse Artigo foi retirado do: RSS - Intituto Ludwig von Mises Brasil - Blog

domingo, 10 de junho de 2012

Estirpe Senhorial x Estirpe Gregária e a Moral Ocidental



 “[...] estabelece o conceito “bom” como essencialmente igual a “útil”, “conveniente”, de modo que nos conceitos “bom” e “ruim” a humanidade teria sumariado e sancionado justamente as experiências inesquecidas e inesquecíveis acerca do útil-conveniente e do nocivo-incoveniente. Bom é, segundo essa teoria, o que desde sempre demonstrou ser útil: assim pode requerer validade como ‘valioso no mais alto grau’, ‘valioso em si’”. (NIETZSCHE, 1999, p. 20).

Na filosofia nietzschiana, as concepções de “bom” e “ruim” nascem de um povo altivo, impávido, isto é, aqueles que Nietzsche irá nomear de povos nobres. É necessário salientar, o nobre, na ótica de Nietzsche, não está relacionado às riquezas, monopólio de algo valoroso no sentido capital. Mas a nobreza aqui referisse a algo forte, destemido, bom tecnicamente falando, isto é, não precisa de valores morais perniciosos que tutelem seu pensar e agir. Os Nobres, estes criadores de valores afirmativos, valores esplêndidos, ou seja, não gregários. Nietzsche assevera que “[...] toda moral nobre nasce de um triunfante Sim a si mesma”. (NIETZSCHE, 1999, p.29).  
No vocabulário da nobreza, só existe o juízo bom x ruim, o útil x inútil, o produzível x estéril, contudo, o forte x franco, inábil. É por meio desses antagonismos, quer dizer, de uma estirpe senhorial x uma estirpe baixa, ou seja, a supremacia do mais forte e intrépido sobre o ínfimo e vil que a nobreza desponta. Nietzsche concebe isso como “pathos da distância”, isto é, aqueles cujo direito era “[...] cunhar nomes para os valores: que lhes importava a utilidade”. (NIETZSCHE, 1999, p. 19).
Não obstante, os juízos dos valores aristocráticos, valores oriundos de uma nobreza inestimável, serão agora, deturpados e cunhados como valores maléficos e pérfidos por um “tipo” de povo que Nietzsche caracteriza como decadentes por excelência. Por meio desta constatação, Nietzsche assevera que a moral de rebanho, ou seja, os valores judaico-cristãos nascem de um ressentimento, de uma revolta contra a estirpe senhorial. Segundo Nietzsche, o conceito “bom” x “ruim”, agora, são invertidos pela moral ressentida, ou melhor, na própria linguagem de Nietzsche, pelo “o instinto de rebanho”, (NIETZSCHE, 1999, p. 19). A inversão moralista será fatal, pois o conceito “ruim” torna-se o “bom”, ou seja, o misericordioso na estirpe de rebanho, sem embargo, o conceito “bom” nobremente falando transformar-se em “mau”, pérfido, malcriado, egoísta moralmente falando.
Nietzsche assegura que toda moral ocidental originou-se de uma tresvalorização de todos os valores nobres. A moral em vigor nos dias atuais é fruto de um ressentimento, de uma inveja de tudo que era sublime, altivo, impávido, temerário e esplendoroso da parte dos nobres. Os valores morais na atmosfera ocidental, na visão de Nietzsche, são valores niilistas, ou seja, negadores daquilo que tem mais significância perante tudo, isto é, a “vida”.  
Analisando a filosofia nietzschiana numa perspectiva ética, os valores ocidentais, advindos de um “caldeirão do ódio insatisfeito” (NIETZSCHE, 1999, p. 32) são pautados em valores além-mundo ou além-túmulo. Estes perpetuados por uma tradição socrático-platônico e posteriormente desdobrados na moral cristã. Essas tradições asseveram que o universo é dualista, das quais, concebem um mundo imperfeito x mundo perfeito numa ótica platônica e um mundo paradisíaco x mundo finito e destrutível num panorama cristão. Ambos para Nietzsche, niilistas, desvalorizadores das vicissitudes vitais.
Enfim, sem a preservação, a elevação, o anti-detrirmento da vida, não existe ética. Sem embargo, lançando mão numa ética nietzschiana, analisamos a moral ocidental, moral que faz da ave de rapina um animal manso e civilizado, perdendo assim, seus instintos e suas vontades naturais em prol de algo que subjulga e condena. Este é o papel da ética, isto é, diagnosticar todo tipo de massificação e domesticação proveniente de uma moral decadente, fraca e vil, ou seja, a nossa moral ocidental.
  

domingo, 11 de março de 2012

Zaratustra " O Profeta Nietzschiano"


Friedrich Nietzsche sintetiza todo seu pensamento na obra Assim falou Zaratustra (1883). Esse livro considerado o evangelho de Nietzsche anunciado por seu mais conhecido personagem: Zaratustra. Em consequencia do grande feito cometido pelo homem moderno, isto é, o grande aniquilamento da moral vigente e a destruição dos valores tradicionais vertido em sangue no punhal da modernidade. “Deus está morto” a proposição mais ouvida e deturpada da filosofia Nietzschiana nasce para caracterizar um novo tipo de homem, uma nova espécie sem a noção de transcendência.
 É neste ponto crucial de exaustão dos valores herdados da tradição que o profeta Zaratustra entra em cena.  O Zaratustra nietzschiano constata a dimensão dessa façanha e propõe um novo horizonte para o parricida moderno pensar em novos valores. Sem transcendência, o que resta ao homem? A imanência. Justamente para esse homem-imanente, esse homem-deus que o cálice de Zaratustra quer transbordar.
As palavras de Zaratustra trazem o verdadeiro ar das alturas; o ápice do conhecimento afirmativo. A busca pela vida não mais no supra-sensível, no extraterrestre, mas o seu sentido encontra-se nesta vida mesmo. Sendo assim, o homem-imanente precisa ser um eterno criador, ele precisa despertar sua vontade de potência adormecida pelo ópio “padronizativo” e inventar novas tábuas. O homem-deus deverá ter probidade consigo mesmo porque toda aquisição do conhecimento provém da vontade, da afirmação de si.
Enfim, Zaratustra desce da montanha com suas tábuas para recompor a ideia de Deus que exprimia a vontade de nada, a depreciação da vida segundo Gilles Deleuze. O personagem Nietzschiano surge para colocar o centro de gravidade da vida na vida. É essa afirmação dionisíaca perante o mundo, o amor fati que proporcionará o novo homem-deus viver a cada instante. Eis, o sentido da imanência.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Marxismo na Literatura

“Eu, Etiqueta”
Em minha calça está grudado um nome
Que não é meu de batismo ou cartório,
Um nome...estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
Que jamais pus na boca, nesta vida,
Em minha camiseta, a marca de cigarro
Que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
Que nunca experimentei (...)
(...) meu isso, meu aquilo,
Desde a cabeça ao bico dos sapatos,
São mensagens,
Letras falantes,
Gritos visuais,
Ordens de uso, abuso, reincidência,
Costume, hábitos, premência,
Indispensabilidade,
E fazem de mim um homem-anúncio itinerante,
Escravo da matéria anunciada.
Estou, na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
Seja negar a minha identidade,
Trocá-la por mil, açambarcando
Todas as marcas registradas,
Todos os logotipos de mercado.
Com que inocência demito-me de ser
Eu que antes era e me sabia
Tão diverso de outros, tão mim-mesmo.
Ser pensante, sentinte e solidário
Com outros seres diversos e conscientes
De sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio (...)
(...) Para anunciar, para vender
Em bares festas praias pérgulas piscina,
E bem à vista exibo esta etiqueta (...)
(...) Onde terei jogado fora
Meu gosto e capacidade de escolher? (...)
Hoje sou costurado, sou tecido,
Sou gravado de forma universal,
Saio da estamparia, não de casa,
Da vitrine me tiram, recolocam,
Objeto pulsante, mas objeto
Que se oferece como signo de outros
Objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
De ser não eu, mas artigo industrial,
Peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu novo nome é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente. 
                                                                                                                                                                          (ANDRADE, Carlos Drummond. Corpo. 10. Ed. Rio de Janeiro: Record, 1987.)


O nosso grande mestre da literatura Carlos Drummond Andrade traz implicitamente no texto acima “Eu, Etiqueta” as ideias do pai do comunismo Karl Marx (1818-1895). Eis, que Karl Marx foi um grande revolucionário e suas ideias são refletidas e debatidas nos dias atuais em varias áreas do conhecimento, tais como Filosofia, História, Sociologia, Ciência Política, Antropologia, Psicologia, Economia, Geografia e outros.
 Marx foi o primeiro a conscientizar a classe proletária de sua situação e mostrar suas condições de emancipação. Segundo Karl Marx, a historia da humanidade poderia ser considerada como a história da alienação humana. A concepção de alienação em Marx é categórica, porém trataremos aqui da alienação que cristaliza-se tanto na parte produtiva por meio da qual o homem é submetido a trabalhar horas por dia e quanto na exploração que é exercida encima desse. Dessa maneira faremos uma ponte com o pensamento de Carlos Drummond Andrade com as ideias Marxistas em relação à produção em massa, a alienação que acontece no meio de produção e a perda da identidade do indivíduo.  
O nascimento desta neurose se deu com o surgimento da Revolução Industrial, sendo assim, o capitalismo se alastrou como uma epidemia incurável dando margem a uma distinção de opressores e oprimidos, mestres e aprendizes, capitalistas e proletariados. Marx classificou isso como A luta de classes em seu livro (Manifesto do Partido Comunista 1848). “Nas palavras de Carlos Drummond o “eu, etiqueta”, o “homem anúncio” demonstra perfeitamente o que Marx diz a respeito da falta de autenticidade perante a matéria produzida pelo proletário. Na visão de Marx, nas cadeias produtivas ocorre uma troca de papeis, ou seja, a mercadoria produzida se torna sujeito e o sujeito se torna mercadoria, se torna um objeto. É dessa forma que o sujeito torna-se alheio, ou melhor, aliena-se e perde o que tem de mais valioso: sua identidade.
Essa é a grande critica que ambos os autores observaram no Capitalismo, no qual, o sujeito perde sua autonomia. Citando uma das frases de Drummond para que possamos sintetizar o nosso objetivo: (...) Onde terei jogado fora meu gosto e capacidade de escolher? (...) nesta frase percebemos a grande alfinetada em nosso senso critico adormecido pela sedução da publicidade e das propagandas que a mídia nos oferece como um ópio do qual resulta um sono profundo de alienação.  Enfim, segundo Marx, a abolição da propriedade privada, a extinção do capitalismo seria a emancipação do homem alienado. Sabemos que essas ideias são muitas vezes consideras utópicas, mas sabemos também que elas estão em vigor e que muitas delas são consideradas como manuais de espíritos livres que almejam uma felicidade universal e desacreditam que o homem é apenas uma peça substituível.

    

“Proletariados uni-vos”
Karl Marx




sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Ideia na Modernidade

           Na filosofia moderna encontramos diversos usos da palavra “ideia”, porém predominou aparentemente o sentido de ideia como representação (mental) de uma coisa. Os significados teológico, metafísico, lógico de ideia um pouco esquecido nesta época, fez muitos autores a conceber as ideias como resultados da atividade de sujeito cognoscente. 

           Mediante essas ideias que a cognição do sujeito possui, é possível conceber-se racionalmente o que as coisas são de verdade tanto no aspecto metafísico quanto no ontológico. A epistemologia foi comum tanto nas tendências racionalistas quanto empiristas, embora rapidamente as primeiras tenham desembocado rapidamente no objeto conhecido, ao passo que as segundas se detiveram no sujeito cognoscente. 

Ideia na visão Racionalista

Os racionalistas tenderam a considerar que as ideias verdadeiras e adequadas têm duas faces: uma serem “conceitos do espírito, que este forma por ser uma coisa pensante”, como dizia Spinoza; a outra, a serem as “próprias coisas enquanto vistas” como afirmava Descartes.

Portanto, Spinoza e Descartes consideraram que as origens das ideias estavam num Deus absoluto ou num ponto de vista absoluto. Em conseqüência disso, os racionalistas inclinaram-se para o inatismo. 

Na visão Empirista 

Já os empiristas usaram com abundância o termo “ideia” em muitos casos, além de terem elaborado suas teorias do conhecimento como uma espécie de “doutrina das ideias”. O empirista John Locke afirma que a palavra "ideia"  indica ser a melhor forma palavra para designar a função de representar qualquer coisa que seja objeto do entendimento quando um homem pensa. A ideia para o filósofo equivale à fantasia, noção, espécie; em conclusão para Locke as ideias provêm das sensações. E o conhecimento consiste unicamente na “percepção da conexão e da concordância, ou da discordância e repulsa por qualquer das nossas ideias.”

Outro empirista indispensável é George Berkeley. Esse filósofo usa o termo ‘ideia’ e não o termo ‘coisa’ por duas razões: porque se supõe que o termo ‘coisa’, ao contrário de ideia, denota algo que existe fora do espírito. Espírito em Berkeley significa “razão” ou “alma”, isto é, a nossa consciência. Segundo o filósofo, os objetos dos sentidos existem no espírito e a esses objetos ele denomina ideia. Contudo, na ótica de Berkeley existir é ser percebido, porém a percepção resulta dos espíritos que percebem e ideias que são “coisas” enquanto percebidas.

David Hume, também foi um grande filósofo empirista que distingue entre “impressões” e “ideias”, e chama ideias as “imagens fracas das impressões ao pensar e ao raciocinar.” As ideias para Hume podem ser simples ou complexas. As ideias simples são as que não admitem distinção nem separação. Já as complexas, são aquelas nas quais podem distinguir-se em partes. 





Um grande expoente na modernidade também foi Immanuel Kant, esse filósofo é considerado como um divisor de águas. Pois afirma que tanto os racionalistas quanto os empiristas utilizaram abusivamente o termo ideia. Kant afirma que a razão e a experiência são fundamentais para o surgimento do conhecimento. Enfatiza que as duas fontes eram imprescindíveis. A concepção de “ideia” para Kant nasce das noções e da transcendência da experiência, sendo assim, temos uma ideia ou conceito da razão.




 

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Intelecto de Deus






São Tomás de Aquino  nasceu próximo a Roccasecca, na Itália, mais precisamente perto de Aquino (comuna italiana da região do Lácio), e ficou conhecido como um dos mais importantes pensadores cristãos e cultos existentes até os dias atuais. Algumas de suas obras foram: Exposição sobre o Credo; O Ente e a Essência (1248-1252); Compêndio de Teologia (1258-1259); Suma Contra os Gentios; Comentário às Sentenças; Suma Teológica; etc.

Tomás de Aquino concebe a existência do mundo não com mero acaso cego, nem a um ato natural ou necessário, mas a um ato livre de Deus. E as ideias que temos das coisas são arquétipos ou princípios de conhecimento. Segundo Tomás, essas ideias se originam no intelecto de Deus. Na obra História da Filosofia Cristã afirma: “[...] há em Deus um intelecto, e neste, uma forma, a cujo modelo Deus criou o mundo: é a esta forma original no intelecto divino que damos o nome de ideia” (AQUINO apud BOEHNER; GILSON, 2009, p.460).
Segundo o filósofo, o modo que as ideias surgem no intelecto do homem é totalmente inverso a Deus, pois para o homem chegar a uma ideia de um objeto deverá passar um processo de adaptação dos objetos exteriores (realidade) com o nosso entendimento (intelecto). Também afirma que o intelecto é uma tábua rasa, isto é, todo o processo cognitivo acontece na realidade. 
Para Tomás de Aquino, as realidades sensitivas e intelectivas são indispensáveis, pois enfatiza que uma depende da outra para existir, ou melhor, sem uma das realidades a outra não existiria. E através dessa relação da razão e experiência que o homem conhece as coisas criadas e sua causa primeira (Deus).

O problema da verdade

O filósofo Tomás de Aquino considera o homem passivo em seu conhecer, e nessa passividade ele tem a total confiança no intelecto.  Pois, a finalidade é chegar às essências das coisas. Portanto, as essências aparecem quando o intelecto abstrai o objeto, ou seja, o intelecto recebe do objeto sua essência. Não há sombra de dúvida que a essência no intelecto seja verdadeira, pois o processo é natural. Como afirma no livro: “Em tal processo não há engano possível, tampouco como a vista não pode errar na percepção da cor, ou o ouvido na do som” (AQUINO apud BOEHNER; GILSON, 2009, p.475).
Tomás de Aquino atesta que a verdade só aparece no juízo, por exemplo: Isto é um homem; Isto é uma árvore; sendo assim, não pode haver questões de verdade quando há concordância com o intelecto. Ao contrário, o juízo vai ser falso quando eu separo, por exemplo: falar que o homem é uma árvore. Enfim, a verdade é adequação “ adaequatio rei et intellectus.” 



sábado, 5 de novembro de 2011

Concepção de Deus em Jonh Loke

  

          John Locke era um filósofo empirista que viveu entre 1632 e 1704. Seu livro mais famoso chama-se Um ensaio sobre o entendimento humano, de 1690. Locke quebra os paradigmas da tradição metafísica e também se opõe ao racionalismo. Pois contradiz os racionalistas de que as ideias são inatas.
       Na concepção de Locke a “mente” humana é uma tábua rasa, uma lousa em branco. Dessa forma ela seria preenchida pela experiência, pelo contato com as coisas exteriores. Portanto, para Locke o conhecimento que temos são resultados das sensações.
     O filósofo deixa claro que nossa mente ou consciência não é mera receptora desses conteúdos extraídos dos sentidos. Para explicar esse processo Locke faz distinção entre sensação e reflexão. As sensações para o filósofo vêm da experiência externa e a reflexão da experiência interna.
      Para experiência externa o filósofo denominou as “ideias simples;” esta ideias são todas as coisas que nossos sentidos podem captar. Já a interna Locke caracteriza de “ideias da reflexão;”, pois são as operações realizadas pela mente, num sentido geral, é o processo de acomodação das ideias na mente do individuo.
      A razão também tem um papel fundamental no processo cognitivo do sujeito, Locke atesta que a razão proporciona uma classificação das qualidades primárias e secundárias. Por qualidades primárias entende-se a extensão, peso, forma, movimento e número de coisas. Já as qualidades secundárias são as cores, o cheiro, o gosto, o som, porém essas qualidades não reproduzem as características verdadeiras, e sim, uma espécie de subjetividade.
     John Locke da ênfase que só existirá conhecimento por meio da discordância e concordância entre as ideias. Nesse conflito de ideias pode ser percebido por dois modos diferentes: por intuição e por demonstração. A intuição é o acordo imediato entre as ideias, ou seja, uma evidência imediata. Mas, é através da demonstração que vamos descodificar as mesmas, isto é, dar uma identificação de cada uma.
Graças às associações das intuições Locke descobre que a existência de Deus pode ser demonstrada racionalmente. O método escolhido pelo filósofo foi utilizar a prova cosmológica, a prova da causalidade do universo. Seu primeiro passo foi dizer que sabemos de forma intuitiva, que algo existe desde a eternidade, pois se não existisse, o inicio teria de vir de alguma outra coisa. “[...] por certeza intuitiva, o homem sabe que o puro nada não produz um ser real mais do que não posso ser igual a dois ângulos retos. [...] nós sabemos que há algum ser real e que o não-ente não pode produzir um ser real, essa é a demonstração evidente de que algo existe desde a eternidade” (REALE; ANTISERI, 2005, p.93).
     Locke afirma que essa coisa existente desde a eternidade, é onipotente, onisciente e eterna. Sendo assim, está é a prova da existência de Deus. Para concluir, John Locke diz que a existência de Deus é mais certa do que aquilo que os sentidos nos manifestam. Neste caso Locke tem um ponto em comum com os racionalistas.
“[...] conhecemos que há um Deus com mais certeza do que existe qualquer outra coisa fora de nós” (LOCKE apud REALE; ANTISERI, 2005, p.103).